segunda-feira, 11 de abril de 2016

Projeto L - I

Prelúdio - Entrada 1






Era final de tarde de mais um dia de inverno. Há muito que não se via um janeiro tão chuvoso, especialmente naquela semana. Parecia que um qualquer deus queria lavar toda a sujeira e podridão daquela cidade. Entre os lobos poucos homens haviam, e estes mais cedo que tarde cediam aos benefícios da crueldade, ao ar nauseabundo que penetrava qualquer moralidade. O latente e potencial selvagerismo que os humanos carregam em seu âmago era aqui externado ininterruptamente.

Lola tenta abrir a porta do prédio. Não tinha guarda-chuva. Achou que não choveria tanto naquele dia. Trazia consigo dois sacos com compras e muita água em suas roupas. O aspecto do prédio não era agradável. A velha do R/C mudou-se para lá ainda pequena. Na altura era uma zona viva de uma cidade vanguardista, dizia a velha sempre que trocava algumas palavras com Lola. O prédio sempre recebia uma pintura nova ao sinal de qualquer desgaste. Sempre na mesma cor, vermelho quase vinho. A cada década viam-se mais borrões entre pinturas, e hoje já não é possível distinguir o resto de tinta dos efeitos erosivos da cidade. Aquele prédio também perdeu sua alma.

O hall de entrada era uma espécie de espelho, refletindo a decadência da rua. Entre os aproximadamente três metros que separavam a grande porta das escadas, no lado esquerdo, como num presságio do interior, a primeira imagem eram os caixotes com lixo amontoado. Ironicamente eram caixotes seletivos, como se esta preocupação ainda existisse. Talvez aqueles caixotes fossem fruto de mais um projeto com desvio na trajetória. Qualquer gasto seria duvidoso, o lixo não seria exceção. As paredes estavam remendadas pelos vários consertos na canalização. Um desses vazamentos atingiu a santa em alto-relevo que ficava sobre as escadas. A água que escorreu pela face santa deixou duas manchas contínuas sob os olhos, como cicatrizes de lágrimas de bolor. Os poucos instantes em que Lola atravessava aqueles três metros sempre davam uma sensação de eternidade, de um momento que se repetia constantemente quando olhava a santa suspensa. Os poucos passos sempre causavam a mesma sensação, o mesmo impacto e a mesma dor em sua cabeça.

As sapatilhas respingavam enquanto Lola subia as escadas. Os passos sutis não impediam o som agudo dos degraus velhos ecoando pelo prédio e em sua mente. Estava cansada, com vontade de sentar em qualquer degrau, de desistir. Não podia. A noite seria longa. Já estava à porta do seu apartamento.

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Um comentário:

  1. Este texto desperta a curiosidade por mais palavras, que aliás, foram bem escolhidas ao longo do narrar. Parabéns, moço Baptista! Sucesso!

    Liz

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