segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sobre a imposição ideológica - Parte I

Este texto segue a ideia lançada anteriormente em "deixem a crença das pessoas em paz", quando afirmei que "a imposição [da crença ou descrença] gerará distorções, influenciando o lado oposto do resultado desejado: imperfeições individuais e sociais". Tratarei aqui da imposição estatal, das imperfeições sociais, o meio viável para combatê-las e considerações sobre dados sociais de alguns países.

"Impor" é ato de colocar sobre, de sobrepor, obrigar algo, de fazer com que aquilo que se deseja seja aceito pelo outro através de mecanismos diversos. "Ideologia", numa concepção neutra, é "conjunto de ideias, crenças e doutrinas, próprias de uma sociedade, de uma época ou de uma classe", ou, numa concepção crítica, "maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação". A imposição, nesse contexto, vem expressa na crença religiosa, algo que sempre esteve presente na história da humanidade, porém, durante o Sec. XX, vimos muitos países combaterem a ideologia religiosa, tornando-se oficialmente Estados ateus. Ressalto que há também o fator cultural-histórico como fundamento para a aceitação, pois o modus operandi não é só uma imposição estatal, mas também individual, como forma "natural" de ser, como identidade singular, tornando-se praticamente impossível dissociar a crença individual das principais características culturais de determinado povo, como pode ser observado em muitos países árabes. Contrário a este processo, e tendo como base esta relação de imposição cultural, e consequente aceitação, está a forma imposta de descrença, e aqui relaciono os Estados comunistas, principalmente os ex URSS (União das Repúblicas Soviéticas Socialistas), que não só determinou um caminho ideológico, mas também perseguiu as instituições religiosas. Antes de aprofundar nesta última parte, vamos a alguns dados:

É frequente o uso por muitos ateus da relação entre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)e a descrença, como se o desenvolvimento social dependesse do ateísmo. Nota-se que há realmente uma forte relação entre a descrença religiosa e o desenvolvimento social, mas há aqui dois equívocos cruciais - talvez até mais.


Antes de aprofundar dados objetivos, vejamos como a ONU divide metodologicamente os países em grupos no IDH:


Equívoco I - erro conceitual


Dentre as pesquisas globais realizadas que abordam a questão da crença2, a mais confiável e mais recente é a do Instituto Gallup3, que fez a seguinte pergunta aos entrevistados: "a religião é uma parte importante do seu cotidiano?". Note que a questão não é sobre o ateísmo, mas sim sobre a religiosidade, ou seja, a descrença na religião não necessariamente determina que o indivíduo seja ateísta. Nem todo irreligioso é ateu, como é o caso dos agnósticos e deístas, mas todo ateu é irreligioso, em sua concepção mais ampla. A imprecisão está no erro dos conceitos que definem irreligiosidade, que é a ausência de religião, e ateísmo, que é a negação da existência de deuses.

TABELA I / * A Gallup não disponibilizou informações sobre Liechtenstein
Note que dos 20 primeiros, correspondente a um IDH  apenas os EUA (por fortes questões culturais), Irlanda e a Áustria (estes dois numa curta margem) não têm uma maioria irrreligiosa, os outros 16 (não incluo Liechtenstein pois não tenho dados credíveis) têm a maioria da população sem crença religiosa. É fácil cair na tentação subjetiva de ligar um ponto a outro.

Equívoco II - superficialidade de análise

Vejamos a próxima tabela:

TABELA II
Dos 20 mencionados nesta tabela, 10 têm maioria da população irreligiosa, sendo que 13 têm mais de 40%. Como explicar, então, que somente 3 deles (Estônia, Letônia e Lituânia, todos países bálticos) estão no grupo do IDH muito alto?

Pela lógica argumentativa de alguns ateus, uma alta taxa de irreligiosos deveria consequentemente ter um bom desenvolvimento social, mas não é isso que vemos ao aprofundar a análise. Perceba que não é essa a ordem cronológica dos acontecimentos, mas sim o inverso: é o desenvolvimento social que pode levar ao crescimento da irreligiosidade, mas não determinar, pois cada país tem suas particularidades culturais que podem ou não proporcionar esse crescimento.

Ainda sobre a TABELA II, há um ponto de interseção entre esses países: comunismo. Citei anteriormente que a URSS impôs uma ideologia contrária à religião, ao ponto de perseguir muitos crentes, e instituiu o ateísmo no Estado. Incluo aqui outros Estados que foram ou são comunistas, sendo alguns destes também perseguiram instituições religiosas, ou, no mínimo, financiaram uma descrença religiosa4. Percebe-se que em todos os casos - com exceção dos países bálticos - a imposição gerou uma espécie de distorção de liberdades, baixando níveis fundamentais para uma evolução social, como a democracia (ressalto que a democracia é basilar no comunismo). Com isto não estou afirmando que o comunismo é o culpado, mas sim a imposição dele, pois qualquer imposição - seja ela qual for - gerará distorção, principalmente quando ela é ideológica, pois é uma tentativa de modificar radicalmente aquilo que nos diferencia enquanto povo, que é a nossa cultura, e enquanto indivíduo, que é a nossa identidade. A prática de impor uma ideologia é, por consequência, um ato de limitação de liberdade.

Liberdade X Responsabilidade

Não é a descrença que desenvolve o bem-estar social, mas sim o amplo espaço de liberdade de escolha dos indivíduos que permite tal desenvolvimento. Integrar-se verdadeiramente, compor o seu papel, ter a consciência do seu espaço, mas também dos seus limites. Este é o meio mais confiável para a evolução social de um povo. Esse processo tem uma forte relação entre liberdade e responsabilidade, pois uma não vem sem a outra. Para ilustrar: imaginemos várias bexigas com diferentes cores. Essas bexigas estão dentro de uma caixa, onde, à medida que ganham ar, começam a inflar, ao ponto de existirem toques entre elas. Se uma dessas bexigas, ou um conjunto delas, não receber ar suficiente, ficará com tamanho desproporcional, e, no inverso, se receberem muito ar, poderá estourar, ou, ainda, caso uma das bexigas, com seu volume diferenciado, entre em conflito com outras pela limitação de espaço, e alguma venha a estourar, o próprio estouro é um risco não só para ela, que causou o desequilíbrio, mas para todas as bexigas. Qualquer dessas possibilidades poderia causar um caos dentro da caixa. O ar deve ser distribuído proporcionalmente, tendo seu limite estabelecido pelo volume das outras bexigas.


Os indivíduos estão em seus países, como as bexigas na caixa; organizam-se em grupo, como as cores; têm sua importância e possibilidade de escolha determinada pela quantidade de liberdades, como o ar nas bexigas; o seu espaço limita-se quando suas liberdades chocam-se com as liberdades dos outros, como o limite de espaço dentro da caixa; e a usurpação de uma fatia de liberdade de um grupo de indivíduos, em detrimento de uma outra, pode causar desequilíbrio na sociedade, ao ponto de provocar uma ruptura, colocando em causa não só a estabilidade do grupo prejudicado, mas todos os grupos dentro da sociedade, como a desordem dentro da caixa.

A fatia de liberdade é igualmente proporcional à fatia de responsabilidade. Quando há verdadeiramente noção do espaço de liberdade, o que ela significa, e os ganhos que patrocina, inevitavelmente sabe-se o seu limite, seja pela plena consciência, ou pelo expresso conhecimento do outro sobre as próprias liberdades. É uma relação de plena consciência.

A crença e a descrença devem ser aceitas pela indivíduo como uma escolha pessoal, através de certa liberdade (as escolhas nem sempre são livres, pois estamos sujeitos a influências culturais), que adquire-se através da inclusão dele - já um cidadão - em sua sociedade. Não cabe a um grupo, ou mesmo o país, impor qual ideologia deve ser seguida.


- Wikipedia - IDH Anexo: Lista de países por Índice de Desenvolvimento Humano
2 - Wikipedia - Pesquisa Irreligião por país
3 - Instituto Gallup - Página na Internet
4 - Catolicismo, Pesquisa de Culturas e Atualidades - Brutal perseguição religiosa na ex-URSS

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Deixem a crença das pessoas em paz

Sim, deixem. Os que me conhecem provavelmente podem pensar que me converti a alguma religião, deixando o ateísmo de lado, ou então que a "moda" ateísta passou. Não é esse o caso. Continuo ateu, continuo achando a religião um erro, mas, analisando friamente, o que, em nossa sociedade, faz sentido?

Desde o atentado de 11 de setembro nos EUA, e, com a constante publicidade feita em torno das motivações religiosas, o movimento ateísta ganhou força pelo mundo. Muitas pessoas passaram a assumir a sua descrença, criando uma espécie de embate entre ciência X fé, e, hoje, o principal ringue são as redes sociais. Nelas encontramos as mais diversas publicações, muitas carregadas de um preconceito assustador, tanto dos fieis, quanto dos céticos: "você merece ir para o inferno", diz o fiel ao ateu, como se desejasse o pior lugar que existisse dentro dos universos possíveis da sua crença, e o ateu responde: "e você é burro por acreditar em algo que não existe". Comportamentos idênticos, motivações idênticas: incapacidade de conviver com a diferença

Imagem do Fábio Coala - http://coala-io.deviantart.com/
Voltando à pergunta do primeiro parágrafo: o que faz sentido em nossa sociedade? Mais: o que, objetivamente, faz sentido em nossas vidas? Arrisco a afirmar que, se consultar 100 pessoas, terei 100 possíveis respostas diferentes, cada uma carregada com as respectivas crenças pessoais. E quando digo crença, estou me referindo à nossa capacidade de crer em algo: acreditamos que um estilo musical é melhor que o outro, fundamentamos estas crenças com uma análise técnica, como composição, arranjos, melodia, ou por afinidade cultural ao estilo, como ser integrado ao meio em que ele surge e desenvolve-se; achamos essa ou aquela cor mais bonita; tal quadro como o mais bonito; tal sistema econômico; dia ou noite. Volto a questionar: qual o sentido disto? Se elevarmos esta análise numa instância que extrapole o nosso  determinismo social, haverá uma ordem natural sobre o que é bom ou ruim, certo ou errado, melhor ou pior? Creio - voilá! - que não.

A crença religiosa é uma instituição antiga, esteve/está presente nas mais diversas e longínquas civilizações, e não será você a impor que tal faceta da nossa humanidade acabe pela sua crença na descrença - sim, crença. A imposição gerará distorções, influenciando o lado oposto do resultado desejado: imperfeições individuais e sociais - no próximo texto falarei sobre elas e darei um exemplo prático.

As escolhas dos outros devem ser livres, e não subjugadas à sua visão de realidade. O debate sadio e a lucidez das palavras são as únicas formas de mostrar ao outro que aquilo que você acredita é bom, certo e melhor, lembrando que não existe combate, não existe guerra, existem, sim, diferenças.