segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Cotas em universidades públicas: opinião


Aviso que isso não é um estudo. Há aqui muitas questões que merecem um maior aprofundamento. Se discorda, ou acha que falta algum ponto, deixe um comentário. Tentei organizar o argumento em 3 partes: histórico, social e jurídico.


Lá vai:

As cotas são vistas por muitos como uma forma de ressarcimento histórico. Como se o negro hoje tivesse direito a uma indenização pela exploração dos seus antepassados. De antemão já desconsidero esse argumento como determinante, caso contrário todos nós deveríamos condenar os alemães nos dias atuais, pois Hitler ascendeu legalmente ao poder. Nestes dois casos, a lógica histórica é a mesma. E algo que muitos desconhecem é que os negros eram vendidos por outros negros, e que a escravidão era praticada também entre negros. Não era apenas uma relação branco-negro, mas também negro-negro. Sem mencionar que ela, apesar das diferentes formas, ocorreu - e ocorre - em muitas civilizações, durante um longo período de tempo e fases e em todos os continentes. É tão antiga quanto a prostituição, ou até mais antiga. Quero dizer com isto que uma sociedade não deve pagar pelos erros passados de uma outra, principalmente quando aquela tem uma mentalidade totalmente diferente desta.

Há a questão social de que a pobreza está relacionada diretamente à cor. Os dados provam que há um fundo de verdade nisto. Em Salvador (cidade em que morei), por exemplo, mais de 80% da população é negra ou mestiça, e apenas uma pequena fatia tem acesso ao que a outra parte da sociedade tem. Isto é algo que vi e vivenciei. Em locais frequentados por uma fatia mais rica da sociedade, o número de negros é mínimo, e, proporcionalmente, isto está inversamente errado. Dito isto, volto a afirmar que esse argumento também não é suficiente para o uso das cotas, pois aqui leva-se em consideração apenas a cor da pele, e não o outro fator que explicarei a seguir.

Por fim, há o argumento jurídico. Muitos dizem: "ele é igual a mim, logo devo ter os mesmos direitos que eles", ou "a própria cota é uma forma de preconceito, pois ela formaliza que os negros são intelectualmente inferiores". Mais uma vez há um ponto relevante, que é a igualdade de direitos. Não se pode construir uma sociedade quando uma parte dela é isenta de direito e/ou deveres. Porém - e aqui está o ponto-chave das cotas - há uma forte relação do tema com o Estado de bem-estar social. A nossa Constituição - que é a base e tradução do que somos, queremos e devemos ser enquanto nação - busca uma harmonia, algo fundamental no desenvolvimento social, e a fundamentação legal está em seu Art. 3º.1. Não temos a mesma base histórica dos EUA, logo não podemos adotar a mesma visão sobre a questão das cotas, temos uma visão de sociedade historicamente europeia, e a social-democracia2 é um conceito europeu que deu certo em muitos países. Não se trata apenas do "eu", trata-se do "nós", respeitando, claro, a individualidade. Se pensarmos na formação histórica, veremos que uma sociedade é modelada de acordo com acontecimentos, e há, nisto, a primeira questão que mencionei: a escravidão. É um fator que influenciou - e muito - a nossa origem enquanto nação. Não seríamos o que somos sem os negros, mas também não seríamos sem os brancos, índios, orientais. Mas, destes, os negros - e índios, mas não vou tocar no assunto - foram praticamente excluídos, e é algo que se prolonga até hoje - salvo as muitas exceções. Essa é uma constatação clara.

Se buscamos uma harmonia enquanto nação, se há uma busca formal por uma social-democracia, se há boa parte - quase metade - da população que está excluída da única e verdadeira forma de revolução social (a educação), a cota é sim uma forma de "sanar" esses problemas. E este é o ponto-chave: a cota deve ser referente à renda, e não à cor. E, além disso, deve ser temporal, ou seja, deve ser um direito com tempo estabelecido por metas, e não uma forma perpétua de direito. A própria nomenclatura é um resquício arcaico: nós somos todos da mesma raça, a humana. Deve-se traçar um objetivo, permitir a inclusão e, quando sentir-se que há uma equidade de acesso aos bens da sociedade, quando realmente sentirmos que não somos somente uma nação historicamente mestiça, mas o produto igualitário dela, as cotas já não se farão necessárias.


1 - Art. 3º. da Constituição: clique aqui
2 - Sobre a social-democracia, leia mais em:  A Social-Democracia no Brasil e no Mundo
Crítica sobre a relação da social-democracia e a Constituição: clique aqui

domingo, 11 de novembro de 2012

A nova Bagdá (Repostagem FF)


Este texto foi escrito em 09-12-2010 para o antigo blog Finisticamente Falando. Infelizmente perdi boa parte do conteúdo quando migrei para o WordPress, mas, por sorte, tenho alguns arquivados aqui no Blogger. Tenham em conta que fazem quase dois anos que ele foi escrito.

Para entender o que aconteceu, e o que está acontecendo, clique aqui.




Ainda estou a espera dos respingos que o vazamento da correspondência oficial dos diplomatas norte-americanos publicados pela WikiLeaks causará. Sim, porque todo esse atrito internacional é pouco, muito mais está por vir, mas já trataremos disto.

Para quem ainda não tem conhecimento do acontecido, vai ai um resumão: a WikiLeaks é um site - tipo Wikipédia - que publica informações, documentos ou fotos de conteúdo confidencial através de usuários anônimos. Recentemente a Wikileaks publicou uma série de documentos confidenciais (por volta de 250 mil) do Governo dos EUA, em que seus Embaixadores estavam a trabalhar como espiões nos respectivos países - ingênuo é o que pensa que isto não acontece com todos os outros países. Nem os principais líderes dos países desenvolvidos e os países ditos aliados dos EUA não escaparam. Incluíam-se desde ações do Governo, a acontecimentos internos de interesse americano. Até mesmo pessoas que eram "anônimas" e passaram a ser conhecidas pelo mundo, como é o caso de alguns venezuelanos que lutam pela democracia em seu país.

Localizaram a fonte que forneceu o conteúdo ao site. O soldado americano - pois é, o soldado americano - Bradley Manning. Já está preso, podendo até ser condenado a morte, como já foi pedido por alguns Republicanos. O dono do Wikileaks, o suéco/australiano/apátrida Julian Assange, também já foi preso na Inglaterra, não pela publicação, mas por duas denúncias de abuso sexual.

Muitos Estados querem a prisão do suéco/australiano/apátrida Julian Assange, principalmente o norte-americano, pois configura-se como crime o que foi publicano. Primeiro o sujeito nem cidadão norte-americano é, na verdade nem país tem, logo não pode ser condenado por "trair a pátria"; segundo, condenem o New York Times, The Guardian, El País e Der Spiegel, pois sem estes o mundo jamais teria conhecimento do conteúdo, já que agiram em acordo com o sueco/australiano/apátrida Julian Assange.

Aqui a primeira medida foi deixar o site fora do ar nos Servidores europeus, mas a quantidade de espelhos criados (aproximadamente 1000) ainda permite o acesso ao conteúdo. Como este que uso http://213.251.145.96/



Aos fatos

Poucas semanas atrás aconteceu aqui em Lisboa a Cimeira da OTAN/NATO. Entre os pontos relevantes estava o discurso de como os países membros da OTAN deveriam criar mecanismos de combate ao novo terrorismo: os crimes informáticos (e-crimes), pois o terrorismo diversificou seus meios.

Por ironia do destino - e só por ele - o país tido como "papai da OTAN", e Estado com maior nível de segurança, é alvo da vazamento de informação confidencial, fato que já é noticiado como "O 11 de Setembro da Diplomacia". Como isso é possível?

Caros, vocês estão diante de um novo Iraque, mas com proporções incrivelmente maiores. Vocês irão  assistir nos próximos meses a um debate feroz por algum tipo de regulamentação internacional da informação na Internet, ou de normas que facilitem o bloqueio a Servidores pelos Estados, algo que muitos países tentam a todo custo, inclusive plantando a própria cruz, e o pior: através da desconfiança e do medo.

Na minha cabeça - e atenção: em minha cabeça - essa "fuga" foi facilitada pelo EUA, pois não há meio melhor para manipular o homem  do que através do medo. Foi assim que a Roma contemporânea fez o que faz durante décadas.

Eles já sabiam que a primeira providência era retirar o Wikileaks do ar, e sabiam que uma das reações era a invasão de vários sites por Hackers, como aconteceu ao do MasterCard, impossibilitando o pagamento online pelos seus clientes.

Já temos o novo Saddam, aquele que facilitaram a chegada ao poder. E que deu o exemplo: vejam o que acontece com aqueles que não aceitam a nossa dementocracia. São literalmente enforcados.

Já temos a nova Bagdá: o seu computador. Ele e o acesso a toda informação pessoal que esteja disponível na Grande Rede, isto quando o Estado sentir que você é um "potencial terrorista".

Do fundo das minhas entranhas, espero muito - muito - estar enganado.

PS: Ainda penso que é uma crise na sonhada globalização, mas o Jamelão acha que não. Vou tentar convencê-lo e depois digo algo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Há espaço para a crítica

Todos os dias - sem exceções - vejo críticas aos políticos, juristas, jornalista, jogadores de futebol, atores, canais de TV, músicos, estilos, moda, ou seja, a tudo que a humanidade produz. Todas essas  críticas geram uma reação, mas nenhuma é tão agressiva, tão desorientada, tão irracional quando se trata de críticas à crença religiosa, uma igreja, ou mesmo a um líder religioso. 

A fé, o crer sem necessária prova, esta fixação que despreza a evidência, gera um comportamento bastante agressivo no sujeito que ultrapassa o limite do simples crer e entra no campo do fanatismo, este que é o canalizador mais obscuro da mente humana, pois é uma fonte de motivação para as mais diversas barbaridades que podemos imaginar - e a história é prova disto. A simples recusa da crítica, sem qualquer argumentação coerente, já é indício de que o limiar entre a fé e o fanatismo foi ultrapassado. 

Fatático - Juggernaut X-Men

"Fanatismo (algumas características do fanático disponível na Wikipédia1)

  • Agressividade excessiva;
  • Preconceitos variados;
  • Estreiteza mental;
  • Extrema credulidade quanto a um determinado "sistema";
  • Ódio;
  • Sistema subjetivo de valores;
  • Intenso individualismo;
  • Demora excessivamente prolongada em determinada situação/circunstância."


Se há espaço para criticar todos as manifestações humanas, há espaço, também, para criticar a fé quando esta se manifesta, justamente por ela não ser somente um produto isolado e abstrato, mas, sim, mais um conceito que gera resultados práticos, como a utilização de determinada crença para guiar ações que influenciem não somente a própria vida, mas a de muitos, ou, mesmo, de uma comunidade, como é o caso de alguns políticos.

Nossa sociedade evolui - você achando ou não - em busca de um grau cada vez maior de racionalização.  E quando eu digo 'sociedade', incluo as religiões, pois a busca pela adaptação da crença às circunstâncias atuais é sinal de que nem a fé é estática e absoluta, por que, então, a sua falta de argumentos deve ser? 


1 - Fanatismo - ver bibliografia disponível aqui

sábado, 3 de novembro de 2012

1 + 1 = 3


Em 1999, ano de fixação cambial das moedas nacionais em relação/comparação ao euro, o marco alemão valia 1,95, o franco francês valia 6,55. E, por coincidência, ou mero acaso para insustentabilidade atual, os desvalorizados escudo português, peseta espanhola e dracma grego (fixado somente em 2000) valiam, respectivamente, 200,4, 166,38 e 340,751. Há, claro, o entendimento econômico para esta variação, mas há, também, a clara noção de sustentabilidade de toda uma sociedade que viu seu poder de compra ser reduzido drasticamente (a maior reclamação que vejo por aqui), compensada com a facilitação ao crédito. A matemática é simples: perco meu poder de compra + sou induzido a endividar-me = uma hora a corda estica.

Ao mesmo tempo, mas cronologicamente antes, os governos destes países supuseram que quanto mais desvalorizada a moeda, maior seria a produção interna, já que os produtos tornariam-se baratos para o exterior. Mas esta lógica não é válida quando a dependência da importação supera a exportação, como acontecia a Portugal, onde a taxa de importação tinha a fatia de 75%. Este caminho foi seguido tanto pelo PSD, como pelo PS, e a manutenção deste status quo torna-se mais que uma grande possibilidade quando questionado o que a população, em sua maioria, quer mudar: alternar entre PS e PSD - os dois maiores responsáveis pela situação atual. Essa é a grande oportunidade de romper com esse modelo corrompido que também corrompe.

1 - Euro: informações