sábado, 27 de outubro de 2012

Erro conceitual: democracia e laicidade

Já fui acusado de perseguir religiosos por "implicar quando eles viram políticos". Para ser preciso, isso vem de uma conversa que tive com um amigo por criticar abertamente os argumentos do pastor Silas Malafaia, que, com um proselitismo escancarado, tenta confundir a cabeça dos já confusos fieis eleitores.


Não sou contra que religiosos - especialmente pastores - se envolvam na atividade política, acho até que acrescentam mais ao debate público por terem uma ótica diferente sobre algumas questões relevantes. Sou contra, sim, à tentativa descarada de querer comparar o Estado a uma grande igreja. A vida de um político - veja bem, POLÍTICO - deve ser guiada por princípios que regem o Estado, e o conceito de laicidade é um deles. Confundir laicidade com democracia é um erro de interpretação conceitual.

Frequentemente o argumento em defesa desse discurso de uma relação, diria eu, intrínseca é a construção da seguinte lógica argumentativa: "vivo em uma democracia" logo "qualquer um tem o direito de expor o que pensa" logo "posso utilizar camuflar argumentos religiosos para interferir na política". Bem, há aqui dois conceitos distintos e um direito: a liberdade de expressão é o direito de todos expressarem livremente o seu pensamento, sendo este um direito basilar da democracia; um dos conceitos é a laicidade do Estado, e ser laico é o mesmo que ser neutro no que toca a crenças religiosas, ou seja, não favorecer a crença/igreja/religião A ou B, não se apoderar/utilizar de princípios religiosos para motivar a legislação, entre outros; já a democracia tem relação com a ampla participação do povo na política do Estado, seja direta ou indiretamente. Dito isto, temos diferenças: o Estado pode ser democrático, mas 'não-laico' (ex.: Reino Unido); pode ser 'não-democrático', mas laico (ex.: China1); ou, ainda, pode ser 'não-democrático' e 'não-laico' (ex.: Marrocos2). Veja bem, uma coisa nada tem a ver com a outra, e a lógica do argumento, neste caso, é inválida, como exemplifiquei acima.

Amanhã (28-10-2012) acontece o segundo turno em algumas cidades importantes do Brasil, como São Paulo, a maior potência da América Latina. O que se viu ao longo dos últimos dias foi um Malafaia tentando vender seu voto, e, com o dele, o dos fieis. Felizmente a própria população paulistana rejeitou esse pequeno ato de bondade. De uma vez por todas, Malafaia, deixe suas ideias dentro da sua igreja. O dízimo não basta?

1 - Sobre a democracia na China leia aqui e aqui 
2 - Sobre a democracia no Marrocos leia aqui e aqui


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