segunda-feira, 11 de abril de 2016

Projeto L - I

Prelúdio - Entrada 1






Era final de tarde de mais um dia de inverno. Há muito que não se via um janeiro tão chuvoso, especialmente naquela semana. Parecia que um qualquer deus queria lavar toda a sujeira e podridão daquela cidade. Entre os lobos poucos homens haviam, e estes mais cedo que tarde cediam aos benefícios da crueldade, ao ar nauseabundo que penetrava qualquer moralidade. O latente e potencial selvagerismo que os humanos carregam em seu âmago era aqui externado ininterruptamente.

Lola tenta abrir a porta do prédio. Não tinha guarda-chuva. Achou que não choveria tanto naquele dia. Trazia consigo dois sacos com compras e muita água em suas roupas. O aspecto do prédio não era agradável. A velha do R/C mudou-se para lá ainda pequena. Na altura era uma zona viva de uma cidade vanguardista, dizia a velha sempre que trocava algumas palavras com Lola. O prédio sempre recebia uma pintura nova ao sinal de qualquer desgaste. Sempre na mesma cor, vermelho quase vinho. A cada década viam-se mais borrões entre pinturas, e hoje já não é possível distinguir o resto de tinta dos efeitos erosivos da cidade. Aquele prédio também perdeu sua alma.

O hall de entrada era uma espécie de espelho, refletindo a decadência da rua. Entre os aproximadamente três metros que separavam a grande porta das escadas, no lado esquerdo, como num presságio do interior, a primeira imagem eram os caixotes com lixo amontoado. Ironicamente eram caixotes seletivos, como se esta preocupação ainda existisse. Talvez aqueles caixotes fossem fruto de mais um projeto com desvio na trajetória. Qualquer gasto seria duvidoso, o lixo não seria exceção. As paredes estavam remendadas pelos vários consertos na canalização. Um desses vazamentos atingiu a santa em alto-relevo que ficava sobre as escadas. A água que escorreu pela face santa deixou duas manchas contínuas sob os olhos, como cicatrizes de lágrimas de bolor. Os poucos instantes em que Lola atravessava aqueles três metros sempre davam uma sensação de eternidade, de um momento que se repetia constantemente quando olhava a santa suspensa. Os poucos passos sempre causavam a mesma sensação, o mesmo impacto e a mesma dor em sua cabeça.

As sapatilhas respingavam enquanto Lola subia as escadas. Os passos sutis não impediam o som agudo dos degraus velhos ecoando pelo prédio e em sua mente. Estava cansada, com vontade de sentar em qualquer degrau, de desistir. Não podia. A noite seria longa. Já estava à porta do seu apartamento.

...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Uma decisão acertada (mais uma)

Poucas coisas a acrescentar sobre a decisão da Suprema Corte americana.

Acrescento:

1 - A repercussão é positiva, tendo em conta que estamos falando do país com maior espaço na mídia, e que, de forma direta e indireta, influenciará muitos mundo afora;

2 - Falta de capacidade - ou pouca capacidade - de interpretação dos dilemas e problemas sociais - prefiro pensar desta forma a supor que é uma questão preconceituosa - leva indivíduos a racionarem de forma baixa, rasteira, ao comparar a comemoração da decisão com a fome, violência, corrupção, etc.. Uma ação positiva não anula uma outra ação positiva. Ambas são bem-vindas. Se há um ganho para uma minoria, e este ganho não afetará a liberdade de uma maioria, por que então criticá-lo?

3 - Não está em causa a alteração da família. O que se pede é a ampliação - já resguardada pela Lei - e o respeito pelas outras formas de família.

Do Finisticamente Falando (10/05/2011):



A homossexualidade existe no mundo desde sempre. A história helênica e latina estão ai para comprovar isto. Não cabe aqui um debate sobre o processo evolutivo do homossexualismo, longe disso. A história foi, já não podemos mudá-la, podemos interpretá-la da maneira que nos convenha, mas fatos são fatos. O presente em específico é o reconhecimento pelo STF da união estável entre pessoas do mesmo sexo, não tendo qualquer tipo de diferença entre união estável de pessoas de sexo diferentes. Mesmo não sendo o casamento civil, abrirá um leque de possibilidades à sociedade tida como moderna. É mais um passo na igualdade de direitos.

Muitas são as vozes contrárias, muitos são os argumentos, e, destes, poucos têm verdadeiramente fundamentação discutível. Numa linha de raciocínio, levando em consideração que escolhemos um modelo democrático com igualdade de direitos, todos os motivos contrários tornam-se infundados: nosso regime não permite que deixemos que somente a moral e os bons costumes determinem o comportamento social. Estes elementos complementares devem permanecer no consciente do humano, cabe a ele externar ou não, se achar que deve ou não deve agir de determinada forma. O que é moral para mim pode ser imoral para você. Mesmo com todo este referencial, questiono-me num ponto sobre o conflito: existem relações entre pessoas do mesmo sexo, da mesma forma que existem pessoas que não concordam com este tipo de relação por achar que é contrária a uma moral coletiva, e estes que condenam, são contrários ao reconhecimento legal destas relações. Então deveria o direito proibir o comportamento homossexual?

A família não será abalada, até porque o conceito de família não é só pai, mãe e filhos, vai além disso. O alicerce da família é a afetividade, e esta independe do sexo dos parceiros. Ou você vai me dizer que um casal de pessoas do mesmo sexo que têm um filho adotivo não formam uma família? Já até imagino o que vem na cabeça de alguns: "eles são gays, o filho também será". E o filho de um político corrupto também é corrupto? O filho de um alcoólatra é alcoólatra? O filho de um religioso fervoroso, fundamentalista será?

Alguns apelam para a biologia e dizem que não é natural pessoas do mesmo sexo manterem relações. Que crias só são possíveis através de um macho e uma fêmea. Ao final da frase anterior acrescento um "também". Somos animais, claro, mas até os animais irracionais demonstram um comportamento homossexual. Além disso, eles não têm escolhas, agem por instinto, são regidos por uma força motora que os fazem reagir de acordo a busca pela sobrevivência da espécie. O humano, além do instinto, dispõe de escolhas conscientes, e ele optará pelo caminho que o agrade da melhor forma possível.

Por fim ficam os que ainda tentam confundir o Estado com uma imensa igreja. Este é mais um claro exemplo de que quando o Estado tinha como centro de suas ações algo que não fosse o Homem, a sociedade era muito mais desigual. Não quer dizer que esta geração tenha culpa pelas barbaridades de séculos atrás, longe disso, mas até que ponto a hipocrisia não reina neste meio? É justamente a religião o principal motor que impulsiona todos os motivos acima descritos. Ela que patrocina essa recusa que ronda um inconsciente coletivo. Afinal, onde está o livre arbítrio?

domingo, 28 de junho de 2015

Gênese

Do finado blog Finisticamente Falando:

07/04/2011

Protesto! Não aceito sua justificativa Sr. Deputado Marco Feliciano. De acordo com a minha tese, todo os homens são iguais. Todos eles são a mesma matéria. Saíram do mesmo lugar. Leia-a com atenção. Deixo o aviso que ela tem um sentido contrário, parte do hoje e volta no tempo. Todos os fatos do passado são influenciados pelo presente, ou seja, não é uma história crescente, mas uma estória decrescente. É complicado, eu sei, mas leia e garanto que vai entender. Guarde a pedra para o final.

Beba:

Após algum tempo sem ter o que fazer, Deus, em um ato egoísta, decide que tudo está muito paradão e resolve fazer uma festa. Muitos fogos de artifício, purpurina e "batidão". Os anjos, que não tinham sexo - coitados - empunhavam suas espadas e arcos, tocavam seus instrumentos celestiais embalando cânticos e solos virtuosos. Historiadores mais fundamentalistas acreditam que este "som" foi a base para o "metal", contrariando os que acreditam que este segmento musical é coisa do Capeta.

O Todo Poderoso não contava com um pormenor: misturar aquela bebida e aquela comida - aqui existe uma incógnita, pois ninguém sabe o que ele bebeu e comeu - a longos solos causa um desarranjo estomacal e intestinal. A ressaca foi longa. Seis dias regrados a peidos, arrotos e vômitos. Do primeiro peido surge o Universo, e este é, sem dúvidas, o peido mais famoso de sempre, carinhosamente chamado pelos cientistas de Big Bang. Todas as galáxias são fruto desse ato flatulento.

A Terra foi o que deu mais trabalho. Ao vomitá-la, Deus teria chorado - aquele famoso vômito com choro - e disto nasceram os oceanos. Ele ficou encantado com aquela cor azul. Tão terna, tão celestial - dai vem o seu monopólio sobre todos os outros 3 x 1021, ou 3 sextrilhões, ou ainda 3.000.000.000.000.000.000.000 de possíveis planetas que existem no Universo. Não acreditava que era fruto de uma explosão ativa do conteúdo gástrico pela boca. Todo os seres e plantas surgiram dos respingos seguintes

Nada está ruim que não possa piorar. O Paizinho do Céu não suspeitava que pior é o que sai por baixo, principalmente após longos seis dias de fermentação. O que será isto? Questionava O Coiso sobre as dores que percorriam seu corpo/aura/luz (?). Os anjos, deslumbrados, assistiam a tudo. Nunca viram uma cena daquelas. Que sensação é esta? São cólicas, respondeu um anjo experiente.

Grande estrondos era o que se ouvia. Verdadeira tempestade foi o que se formou. Num ato involuntário, O Ser Supremo agachou-se. Já não aguentava as dores. Abaixado, como a espera de algo, Deus gritou: sai infeliz! De seguida um “ah...”, e todos, com caras de espanto e curiosidade, responderam “oh!”.

Ao voltar seus olhos d'água sobre o ombro, o Senhor Pai dos Pais viu um ser que nunca tinha visto. Questionou-se se aquilo tinha mesmo saído da sua cloaca. Ainda ofegante ele disse: Adão. Esse é o seu nome. Você andará pelo mundo espalhando maldade, falsidade e mentiras. Mas não esqueça o que você é e nem de onde saiu.

Vá, agora pode jogar a pedra.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A castanha



A calma, escudo d'alma
Esconde o que procuras
E negas, discreta
A bela - É bela, eu sei!

Invejas, na quadrilha, a Lili:
Que não amava nem a si
Sem saber, nem pensar
O quão bom é amar

E ouve-se, silenciosamente
O grito: deixe-me sair!
Reclusa, ignora

Fechada, em si
Silencia,
E dorme

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sobre a imposição ideológica - Parte I

Este texto segue a ideia lançada anteriormente em "deixem a crença das pessoas em paz", quando afirmei que "a imposição [da crença ou descrença] gerará distorções, influenciando o lado oposto do resultado desejado: imperfeições individuais e sociais". Tratarei aqui da imposição estatal, das imperfeições sociais, o meio viável para combatê-las e considerações sobre dados sociais de alguns países.

"Impor" é ato de colocar sobre, de sobrepor, obrigar algo, de fazer com que aquilo que se deseja seja aceito pelo outro através de mecanismos diversos. "Ideologia", numa concepção neutra, é "conjunto de ideias, crenças e doutrinas, próprias de uma sociedade, de uma época ou de uma classe", ou, numa concepção crítica, "maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação". A imposição, nesse contexto, vem expressa na crença religiosa, algo que sempre esteve presente na história da humanidade, porém, durante o Sec. XX, vimos muitos países combaterem a ideologia religiosa, tornando-se oficialmente Estados ateus. Ressalto que há também o fator cultural-histórico como fundamento para a aceitação, pois o modus operandi não é só uma imposição estatal, mas também individual, como forma "natural" de ser, como identidade singular, tornando-se praticamente impossível dissociar a crença individual das principais características culturais de determinado povo, como pode ser observado em muitos países árabes. Contrário a este processo, e tendo como base esta relação de imposição cultural, e consequente aceitação, está a forma imposta de descrença, e aqui relaciono os Estados comunistas, principalmente os ex URSS (União das Repúblicas Soviéticas Socialistas), que não só determinou um caminho ideológico, mas também perseguiu as instituições religiosas. Antes de aprofundar nesta última parte, vamos a alguns dados:

É frequente o uso por muitos ateus da relação entre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)e a descrença, como se o desenvolvimento social dependesse do ateísmo. Nota-se que há realmente uma forte relação entre a descrença religiosa e o desenvolvimento social, mas há aqui dois equívocos cruciais - talvez até mais.


Antes de aprofundar dados objetivos, vejamos como a ONU divide metodologicamente os países em grupos no IDH:


Equívoco I - erro conceitual


Dentre as pesquisas globais realizadas que abordam a questão da crença2, a mais confiável e mais recente é a do Instituto Gallup3, que fez a seguinte pergunta aos entrevistados: "a religião é uma parte importante do seu cotidiano?". Note que a questão não é sobre o ateísmo, mas sim sobre a religiosidade, ou seja, a descrença na religião não necessariamente determina que o indivíduo seja ateísta. Nem todo irreligioso é ateu, como é o caso dos agnósticos e deístas, mas todo ateu é irreligioso, em sua concepção mais ampla. A imprecisão está no erro dos conceitos que definem irreligiosidade, que é a ausência de religião, e ateísmo, que é a negação da existência de deuses.

TABELA I / * A Gallup não disponibilizou informações sobre Liechtenstein
Note que dos 20 primeiros, correspondente a um IDH  apenas os EUA (por fortes questões culturais), Irlanda e a Áustria (estes dois numa curta margem) não têm uma maioria irrreligiosa, os outros 16 (não incluo Liechtenstein pois não tenho dados credíveis) têm a maioria da população sem crença religiosa. É fácil cair na tentação subjetiva de ligar um ponto a outro.

Equívoco II - superficialidade de análise

Vejamos a próxima tabela:

TABELA II
Dos 20 mencionados nesta tabela, 10 têm maioria da população irreligiosa, sendo que 13 têm mais de 40%. Como explicar, então, que somente 3 deles (Estônia, Letônia e Lituânia, todos países bálticos) estão no grupo do IDH muito alto?

Pela lógica argumentativa de alguns ateus, uma alta taxa de irreligiosos deveria consequentemente ter um bom desenvolvimento social, mas não é isso que vemos ao aprofundar a análise. Perceba que não é essa a ordem cronológica dos acontecimentos, mas sim o inverso: é o desenvolvimento social que pode levar ao crescimento da irreligiosidade, mas não determinar, pois cada país tem suas particularidades culturais que podem ou não proporcionar esse crescimento.

Ainda sobre a TABELA II, há um ponto de interseção entre esses países: comunismo. Citei anteriormente que a URSS impôs uma ideologia contrária à religião, ao ponto de perseguir muitos crentes, e instituiu o ateísmo no Estado. Incluo aqui outros Estados que foram ou são comunistas, sendo alguns destes também perseguiram instituições religiosas, ou, no mínimo, financiaram uma descrença religiosa4. Percebe-se que em todos os casos - com exceção dos países bálticos - a imposição gerou uma espécie de distorção de liberdades, baixando níveis fundamentais para uma evolução social, como a democracia (ressalto que a democracia é basilar no comunismo). Com isto não estou afirmando que o comunismo é o culpado, mas sim a imposição dele, pois qualquer imposição - seja ela qual for - gerará distorção, principalmente quando ela é ideológica, pois é uma tentativa de modificar radicalmente aquilo que nos diferencia enquanto povo, que é a nossa cultura, e enquanto indivíduo, que é a nossa identidade. A prática de impor uma ideologia é, por consequência, um ato de limitação de liberdade.

Liberdade X Responsabilidade

Não é a descrença que desenvolve o bem-estar social, mas sim o amplo espaço de liberdade de escolha dos indivíduos que permite tal desenvolvimento. Integrar-se verdadeiramente, compor o seu papel, ter a consciência do seu espaço, mas também dos seus limites. Este é o meio mais confiável para a evolução social de um povo. Esse processo tem uma forte relação entre liberdade e responsabilidade, pois uma não vem sem a outra. Para ilustrar: imaginemos várias bexigas com diferentes cores. Essas bexigas estão dentro de uma caixa, onde, à medida que ganham ar, começam a inflar, ao ponto de existirem toques entre elas. Se uma dessas bexigas, ou um conjunto delas, não receber ar suficiente, ficará com tamanho desproporcional, e, no inverso, se receberem muito ar, poderá estourar, ou, ainda, caso uma das bexigas, com seu volume diferenciado, entre em conflito com outras pela limitação de espaço, e alguma venha a estourar, o próprio estouro é um risco não só para ela, que causou o desequilíbrio, mas para todas as bexigas. Qualquer dessas possibilidades poderia causar um caos dentro da caixa. O ar deve ser distribuído proporcionalmente, tendo seu limite estabelecido pelo volume das outras bexigas.


Os indivíduos estão em seus países, como as bexigas na caixa; organizam-se em grupo, como as cores; têm sua importância e possibilidade de escolha determinada pela quantidade de liberdades, como o ar nas bexigas; o seu espaço limita-se quando suas liberdades chocam-se com as liberdades dos outros, como o limite de espaço dentro da caixa; e a usurpação de uma fatia de liberdade de um grupo de indivíduos, em detrimento de uma outra, pode causar desequilíbrio na sociedade, ao ponto de provocar uma ruptura, colocando em causa não só a estabilidade do grupo prejudicado, mas todos os grupos dentro da sociedade, como a desordem dentro da caixa.

A fatia de liberdade é igualmente proporcional à fatia de responsabilidade. Quando há verdadeiramente noção do espaço de liberdade, o que ela significa, e os ganhos que patrocina, inevitavelmente sabe-se o seu limite, seja pela plena consciência, ou pelo expresso conhecimento do outro sobre as próprias liberdades. É uma relação de plena consciência.

A crença e a descrença devem ser aceitas pela indivíduo como uma escolha pessoal, através de certa liberdade (as escolhas nem sempre são livres, pois estamos sujeitos a influências culturais), que adquire-se através da inclusão dele - já um cidadão - em sua sociedade. Não cabe a um grupo, ou mesmo o país, impor qual ideologia deve ser seguida.


- Wikipedia - IDH Anexo: Lista de países por Índice de Desenvolvimento Humano
2 - Wikipedia - Pesquisa Irreligião por país
3 - Instituto Gallup - Página na Internet
4 - Catolicismo, Pesquisa de Culturas e Atualidades - Brutal perseguição religiosa na ex-URSS

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Deixem a crença das pessoas em paz

Sim, deixem. Os que me conhecem provavelmente podem pensar que me converti a alguma religião, deixando o ateísmo de lado, ou então que a "moda" ateísta passou. Não é esse o caso. Continuo ateu, continuo achando a religião um erro, mas, analisando friamente, o que, em nossa sociedade, faz sentido?

Desde o atentado de 11 de setembro nos EUA, e, com a constante publicidade feita em torno das motivações religiosas, o movimento ateísta ganhou força pelo mundo. Muitas pessoas passaram a assumir a sua descrença, criando uma espécie de embate entre ciência X fé, e, hoje, o principal ringue são as redes sociais. Nelas encontramos as mais diversas publicações, muitas carregadas de um preconceito assustador, tanto dos fieis, quanto dos céticos: "você merece ir para o inferno", diz o fiel ao ateu, como se desejasse o pior lugar que existisse dentro dos universos possíveis da sua crença, e o ateu responde: "e você é burro por acreditar em algo que não existe". Comportamentos idênticos, motivações idênticas: incapacidade de conviver com a diferença

Imagem do Fábio Coala - http://coala-io.deviantart.com/
Voltando à pergunta do primeiro parágrafo: o que faz sentido em nossa sociedade? Mais: o que, objetivamente, faz sentido em nossas vidas? Arrisco a afirmar que, se consultar 100 pessoas, terei 100 possíveis respostas diferentes, cada uma carregada com as respectivas crenças pessoais. E quando digo crença, estou me referindo à nossa capacidade de crer em algo: acreditamos que um estilo musical é melhor que o outro, fundamentamos estas crenças com uma análise técnica, como composição, arranjos, melodia, ou por afinidade cultural ao estilo, como ser integrado ao meio em que ele surge e desenvolve-se; achamos essa ou aquela cor mais bonita; tal quadro como o mais bonito; tal sistema econômico; dia ou noite. Volto a questionar: qual o sentido disto? Se elevarmos esta análise numa instância que extrapole o nosso  determinismo social, haverá uma ordem natural sobre o que é bom ou ruim, certo ou errado, melhor ou pior? Creio - voilá! - que não.

A crença religiosa é uma instituição antiga, esteve/está presente nas mais diversas e longínquas civilizações, e não será você a impor que tal faceta da nossa humanidade acabe pela sua crença na descrença - sim, crença. A imposição gerará distorções, influenciando o lado oposto do resultado desejado: imperfeições individuais e sociais - no próximo texto falarei sobre elas e darei um exemplo prático.

As escolhas dos outros devem ser livres, e não subjugadas à sua visão de realidade. O debate sadio e a lucidez das palavras são as únicas formas de mostrar ao outro que aquilo que você acredita é bom, certo e melhor, lembrando que não existe combate, não existe guerra, existem, sim, diferenças.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Cotas em universidades públicas: opinião


Aviso que isso não é um estudo. Há aqui muitas questões que merecem um maior aprofundamento. Se discorda, ou acha que falta algum ponto, deixe um comentário. Tentei organizar o argumento em 3 partes: histórico, social e jurídico.


Lá vai:

As cotas são vistas por muitos como uma forma de ressarcimento histórico. Como se o negro hoje tivesse direito a uma indenização pela exploração dos seus antepassados. De antemão já desconsidero esse argumento como determinante, caso contrário todos nós deveríamos condenar os alemães nos dias atuais, pois Hitler ascendeu legalmente ao poder. Nestes dois casos, a lógica histórica é a mesma. E algo que muitos desconhecem é que os negros eram vendidos por outros negros, e que a escravidão era praticada também entre negros. Não era apenas uma relação branco-negro, mas também negro-negro. Sem mencionar que ela, apesar das diferentes formas, ocorreu - e ocorre - em muitas civilizações, durante um longo período de tempo e fases e em todos os continentes. É tão antiga quanto a prostituição, ou até mais antiga. Quero dizer com isto que uma sociedade não deve pagar pelos erros passados de uma outra, principalmente quando aquela tem uma mentalidade totalmente diferente desta.

Há a questão social de que a pobreza está relacionada diretamente à cor. Os dados provam que há um fundo de verdade nisto. Em Salvador (cidade em que morei), por exemplo, mais de 80% da população é negra ou mestiça, e apenas uma pequena fatia tem acesso ao que a outra parte da sociedade tem. Isto é algo que vi e vivenciei. Em locais frequentados por uma fatia mais rica da sociedade, o número de negros é mínimo, e, proporcionalmente, isto está inversamente errado. Dito isto, volto a afirmar que esse argumento também não é suficiente para o uso das cotas, pois aqui leva-se em consideração apenas a cor da pele, e não o outro fator que explicarei a seguir.

Por fim, há o argumento jurídico. Muitos dizem: "ele é igual a mim, logo devo ter os mesmos direitos que eles", ou "a própria cota é uma forma de preconceito, pois ela formaliza que os negros são intelectualmente inferiores". Mais uma vez há um ponto relevante, que é a igualdade de direitos. Não se pode construir uma sociedade quando uma parte dela é isenta de direito e/ou deveres. Porém - e aqui está o ponto-chave das cotas - há uma forte relação do tema com o Estado de bem-estar social. A nossa Constituição - que é a base e tradução do que somos, queremos e devemos ser enquanto nação - busca uma harmonia, algo fundamental no desenvolvimento social, e a fundamentação legal está em seu Art. 3º.1. Não temos a mesma base histórica dos EUA, logo não podemos adotar a mesma visão sobre a questão das cotas, temos uma visão de sociedade historicamente europeia, e a social-democracia2 é um conceito europeu que deu certo em muitos países. Não se trata apenas do "eu", trata-se do "nós", respeitando, claro, a individualidade. Se pensarmos na formação histórica, veremos que uma sociedade é modelada de acordo com acontecimentos, e há, nisto, a primeira questão que mencionei: a escravidão. É um fator que influenciou - e muito - a nossa origem enquanto nação. Não seríamos o que somos sem os negros, mas também não seríamos sem os brancos, índios, orientais. Mas, destes, os negros - e índios, mas não vou tocar no assunto - foram praticamente excluídos, e é algo que se prolonga até hoje - salvo as muitas exceções. Essa é uma constatação clara.

Se buscamos uma harmonia enquanto nação, se há uma busca formal por uma social-democracia, se há boa parte - quase metade - da população que está excluída da única e verdadeira forma de revolução social (a educação), a cota é sim uma forma de "sanar" esses problemas. E este é o ponto-chave: a cota deve ser referente à renda, e não à cor. E, além disso, deve ser temporal, ou seja, deve ser um direito com tempo estabelecido por metas, e não uma forma perpétua de direito. A própria nomenclatura é um resquício arcaico: nós somos todos da mesma raça, a humana. Deve-se traçar um objetivo, permitir a inclusão e, quando sentir-se que há uma equidade de acesso aos bens da sociedade, quando realmente sentirmos que não somos somente uma nação historicamente mestiça, mas o produto igualitário dela, as cotas já não se farão necessárias.


1 - Art. 3º. da Constituição: clique aqui
2 - Sobre a social-democracia, leia mais em:  A Social-Democracia no Brasil e no Mundo
Crítica sobre a relação da social-democracia e a Constituição: clique aqui